quarta-feira, 21 de outubro de 2009

ADVOGADO TAMBÉM TEM CORAÇÃO!




Sempre me questionam: como você tem coragem de defender bandidos?

Sempre respondo: todos têm o direito de defesa, assegurando pela constituição, assim como um julgamento justo. E mais. Muitos são acusados indevidamente, por mais crimes do que realmente cometeram, alguns, por serem primários, ainda têm recuperação, e poucos são realmente inocentes. Continuo dizendo: que nem sempre se trabalha para absolver o cliente, mas também pela diminuição da pena, pelo melhor regime de cumprimento, etc.

Gosto muito de rebater o senso comum sobre processos criminais e banco dos réus, de modo a desmistificar o outro lado da moeda, mostrando o ponto de vista dos desvalidos, dos desafortunados, dos desamparados e abandonados socialmente.

Porém, hoje, pela primeira vez, fiquei constrangido por patrocinar uma causa!

Aceitei o caso sem ler o processo, vi apenas a denúncia e fui para a audiência de instrução, que ocorreu no dia seguinte à minha contratação. Meu cliente, um dos quatro acusados no processo, foi denunciado por roubo qualificado pelo emprego de arma e o concurso de pessoas. Até aí nada de novo para mim.

No decorrer da audiência, ficou demonstrado, pelos depoimentos das vítimas, que o meu cliente foi extremamente violento, de forma desnecessária, chego a dizer: CRUEL! A emoção das vítimas contagiou a todos na sala de audiência (juíza, promotora, dois defensores públicos e outros dois advogados). Muito forte os fatos relatados. Não fiz nem perguntas aos depoentes, com medo de descobrir mais coisas horríveis. Todos olharam para mim como se eu fosse uma extensão do meu cliente. Senti o tom desabonador.

Houve a mutatio libelis, a promotora resolveu mudar a denúncia dos acusados, pedindo a condenação dos mesmos pelo crime de tentativa de latrocínio. O caso se agravou bastante. Sai do Forum com o estômago embrulhado!

Este blog não é um diário, mas tive que escrever isto para poder externar meu dilema (sentimento pessoal Vs. dever profissional).

Advogado também tem coração!

Um comentário:

  1. Você está correto ao não misturar as coisas. Na verdade não há conflito enquanto o seu lado pessoal não influenciar na atuação profissional. No caso citado, parece que o réu não tinha defesa, portanto não cabe ao advogado fabricá-la, devendo sua atuação profissional ser direcionada à preservação da correta aplicação do direito, resguardando o seu cliente contra abusos.

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